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quarta-feira, 3 de março de 2010

CASO ELISEU - ENTREVISTA COM MARCOS ROLIM

A morte de Eliseu Santos está envolta em dúvidas profundas e fatos que não estão recebendo a devida publicidade, como as investigações relativas ao Instituto Sollus e o possível envolvimento de Eliseu e outros membros da prefeitura no desvio de R$ 10 milhões em verbas provenientes da saúde da capital. A postura da polícia e da grande imprensa também tem contornos confusos e questionáveis.


Diante disso, convidei Marcos Rolim para uma entrevista sobre o tema. Rolim é ex-deputado estadual e federal pelo RS, jornalista, consultor em Segurança Pública e Direitos Humanos, além de membro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária. É membro fundador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Instituto Brasileiro de Justiça Restaurativa, integrando, ainda, o Comitê Nacional de Combate à Tortura.

Mirgon - Rolim, agradeço a sua disposição em conceder essa entrevista para o blog. O senhor tem sustentado que todos os indícios levam a crer que o assassinato de Eliseu Santos tenha sido uma execução, ao contrário do que os jornais e rádios têm veiculado em suas coberturas sobre a opinião das investigações. Que elementos são esses que o levam a discordar do rumo das investigações?

Marcos Rolim - Antes de responder esta primeira questão, gostaria de assinalar um aspecto da cobertura da imprensa que me parece relevante. Quem acompanhou as primeiras notícias sobre o assassinato e as matérias dos jornais de sábado percebeu que, depois disso, houve uma inflexão na cobertura da mídia que passou a assumir a hipótese do latrocínio. Uma das razões para esta mudança foi a de que a cúpula da Polícia Civil passou a tratar o fato como latrocínio antes mesmo que houvesse investigação. Quando coisas assim ocorrem pode apostar que há encrenca. Jornalistas possuem fontes nas polícias e, quase sempre, não mantém uma postura independente diante delas. A falta de formação na área e os laços de amizade e confiança que os setoristas vão construindo com suas fontes fazem com que, muitas vezes, os jornalistas se transformem em assessores de imprensa das polícias sem que se dêem conta disso. A propósito, uma polícia altamente profissionalizada não passa informações sobre rumos de investigação à imprensa, salvo quando esta atitude for importante para o sucesso da própria investigação.

Sobre os indícios, sabemos que furtos e roubos são “crimes de oportunidade”. A criminologia define assim aquele tipo de crime que, como regra, só ocorre quando os autores percebem uma oportunidade tida como favorável para a consumação. No caso, a oportunidade melhor para a abordagem da vítima se deu antes de Eliseu Santos acomodar mulher e filha no veículo. O fato dos autores terem esperado ele acomodar a família no carro para abordá-lo constitui uma evidência forte em favor da hipótese de execução. Na mesma linha, se o objetivo era roubar o carro, os autores poderiam tê-lo roubado após a morte da vítima. Ainda que não o fizessem, certamente levariam a pistola da vítima. Nada disso ocorreu, o que não bate com a conduta mais comum neste tipo de crime, mesmo quando há reação. Foi dito que os autores do crime eram “amadores” porque não usaram pistolas, mas revólveres. Digo que é mais “profissional” o assassino que usa revólver (desde que com munição de alto impacto), porque pistolas ejetam cápsulas que permitem à perícia informações relevantes sobre estojos e lotes de munição, etc. Revólveres não deixam este tipo de vestígio.

Não penso que seja uma coincidência o assassinato de dois médicos (Eliseu e Becker) – que se conheciam e que tiveram disputas na área da saúde – em um intervalo de pouco mais de um ano, em circunstâncias semelhantes, na mesma região da cidade, etc. É provável que exista relação entre os fatos. Esta hipótese, entretanto, é muito difícil para a Polícia Civil, porque pode colocar em questão as conclusões do inquérito sobre o assassinato de Becker. Haverá, além disso, problemas políticos de monta caso se confirme a hipótese da execução. Penso que tudo isso esteja conduzindo as investigações para uma conclusão apressada e errada ou, o que é pior, para uma conclusão mentirosa.

Mirgon - Segundo informação que o senhor postou no seu Twitter, os assassinos teriam tratado Eliseu pelo nome. O senhor confirma essa informação? Esse fato deveria ser determinante no rumo das investigações?

Marcos Rolim - Não sei se a informação é verdadeira. O que me foi dito por fonte confiável é que esta informação é de domínio da direção do PTB. Foi o que relatei no twitter: circula na direção do PTB que os assassinos chamaram a vítima pelo nome. É claro que se esta informação for verdadeira não restará dúvida sobre a natureza do fato.

Mirgon - Tendo sido realmente uma execução, uma das possibilidades é que tenha ligações com o caso Sollus. O senhor considera essa opção a mais provável? Por que?

Marcos Rolim - No caso de estarmos lidando como uma execução, o caso Sollus aparece – claro – como um tema importante. Não apenas pelos interesses envolvidos, mas por se tratar de escândalo recente. Lembremos que Eliseu havia prestado depoimento à PF na véspera. Não se pode dizer, entretanto, que o caso Sollus tenha maior probabilidade de estar na origem do assassinato, nem se deveria desprezar outras possibilidades. Para isso seria preciso conhecer melhor quem foi Eliseu Santos. Fomos deputados em um mesmo período e, embora nunca tenha tido uma relação próxima com Eliseu, lembro de ter ouvido dele, mais de uma vez, de que “prenderia o dedo” caso se encontrasse com um “vagabundo”. Sinceramente, Eliseu me parecia, desde aquela época, um sujeito capaz de “perder facilmente o contato com a torre”. Mais recentemente, fiquei sabendo que ele mantinha uma arma no porta-malas do seu carro, porque imaginava que assim teria chance de reagir caso fosse seqüestrado e colocado ali. Há alguns anos, Eliseu baleou um fotógrafo em uma discussão banal de trânsito em Porto Alegre e, por pouco não o matou. Isto evidencia um tipo de temperamento que o predispunha ao conflito, à ameaça, etc. algo, digamos, pouco evangélico. Óbvio que um sujeito assim faz muitos inimigos. Então, se confirmada a tese da execução, a polícia terá que lidar com muitas possibilidades, o que faz o caso mais difícil.

Mirgon - Para finalizar, o assassinato de Eliseu tem em comum com a morte de Marcelo Cavalcanti o fato de ter ocorrido em meio à investigações de corrupção que envolviam Eliseu no municipio e Cavalcanti no estado. A morte de Marcelo Cavalcanti nunca foi bem explicada e também restou dúvidas sobre um possível assassinato de queima de arquivo. Eliseu pode ter sido executado. Qual a sua opinião sobre esse momento de "faroestização" da política gaucha, antes tida como uma das mais qualificadas do país?

Marcos Rolim - Primeiro, penso que a política gaúcha nunca foi algo muito qualificado. Em um passado mais remoto, talvez. Mas nos últimos 50 anos, o que ocorreu com a política brasileira ocorreu com a política gaúcha. Houve uma desqualificação contínua em nossa representação parlamentar e se abriram possibilidades inéditas para a consagração eleitoral de máfias políticas nos governos. O fenômeno é generalizado e foi abatendo os partidos um a um. A pior notícia é que estamos no meio deste processo. Ou seja: ainda não chegamos ao fundo do poço. O que o RS teve, por um bom tempo, como diferencial foi uma sociedade civil mais organizada, mas ativa e consciente. Isto produziu um impacto na realidade institucional e fez com que os poderes funcionassem em um sentido mais republicano. Penso que estamos perdendo esta vantagem também pelo amesquinhamento do debate público, pelas simplificações oferecidas pela mídia, pela incapacidade que direita e esquerda têm demonstrado de revisar suas posições e se sintonizar com os grandes temas do mundo e da democracia.

A morte de Marcelo Cavalcante segue sendo um mistério. Na época, escrevi um artigo em ZH a respeito da seleção do afogamento por suicidas, com base em muitos estudos científicos, onde sustentei que as circunstâncias da morte dele desautorizavam a hipótese do suicídio. Sigo com esta opinião e, neste tempo todo, a Polícia Civil do DF não ofereceu uma só evidência capaz de contrastá-la. Francamente, acho que a Polícia não produziu o que poderia ter produzido, porque o governador do DF chamava-se Arruda.

Não acho que exista ligação entre as mortes de Marcelo E Eliseu. Mas é possível que exista uma característica comum entre as vítimas: ambos poderiam causar um estrago político considerável se contassem tudo aquilo que, provavelmente, sabiam.

Eliseu Santos afirmou na PF que já teria matado um homem

Em entrevista a uma rádio ontem, o Superintendente da PF, Delegado Ildo Gasparetto, disse que Eliseu Santos afirmou em depoimento à Policia Federal, um dia antes de morrer, que já teria matado um homem e que precisava renovar o porte de arma. O sinistro nisso tudo é que ninguém sabia desse fato, nem a Policia Civil, e não há registro do acontecido. A Policia Federal não deu detalhes e nem afirmou se a morte dessa pessoa tem relação com o assassinato ou com o desvio de R$ 9 milhões de reais da prefeitura de Porto Alegre. O delegado da Policia Civil, Ranolfo Vieira Junior, que investiga o caso, disse que nada consta nos resgistros policiais sobre o episódio.


Se Eliseu Santos afirmou em depoimento na PF que já teria matado um homem (quem seria?) e, poderia estar envolvido no desvio de recursos públicos da Prefeitura de Porto Alegre, então, estamos diante de um caso muito cabeludo.
 
Hoje pela manhã, na mesma rádio, foi noticiado que a Polícia busca os autores do crime junto aos ladrões de carros.
 
Ora!!! Será mesmo que querem empurrar a versão de latrocínio?
 
Perguntas a serem respondidas:
 
Matadores preferem usar revólver 38 porque a cápsula do projétil fica no tambor, ao contrário da pistola, que fica no chão e facilita a detecção na balística (Fonte: Investigador da PC). Por que afirmam que quem matou Eliseu era um "chinelo", pois não usava pistola?

Eliseu, por várias vezes, dizia que tinha sido ameaçado pelo dono da empresa Reação, o mesmo que denunciou o recebimento de propina pela SMS.

Eliseu era um cara brigão, arrumava desavensas com muita facilidade e "peitava" todo mundo. Será que a PC não levará em conta esses fatos em sua linha de investigação.

Marcelo Cavalcante foi achado morto em uma lagoa no DF. A PC de lá concluiu que foi suicídio. A lagoa em questão possui uma profundidade de no máximo 1,5 metros, e não foi encontrado nenhum resquício de água nos pulmões de Marcelo. Eliseu se matou?

segunda-feira, 1 de março de 2010

Por que e como?

Uma das hipóteses para o assassinato do secretário de Saúde de Porto Alegre, Eliseu Santos, é de que ele foi vítima de uma tentativa de assalto. Neste caso, estaríamos diante de um latrocínio (roubar para matar) mesmo que nenhum bem material do secretário tenha sido levado. Contra esta hipótese, o testemunho da esposa do secretário que disse não ter ouvido qualquer anúncio de assalto. A esposa era a testemunha adulta (a outra seria a filha de seis anos) mais próxima de Eliseu no momento em que o tiroteio começou.
Mas se os homens que atacaram Eliseu queriam roubar o carro, por exemplo, porque o veículo não foi levado? Aliás, por que não roubaram nada, nem mesmo a pistola automática que ele carregava? Ladrões costumam gostar de armas sofisticadas e, para obtê-las, não raro, fazem verdadeiros sacrifícios.
A primeira explicação poderia ser de que, como já estava no inteiror do veículo quando a ação teve início, a esposa de Eliseu poderia não ter ouvido os ladrões anunciarem o assalto. Para responder ao segundo questionamento, poderia se dizer que, diante da reação do secretário (testemunhos levaram à conclusão de ele teria atirado primeiro), os homens teriam desistido do roubo e fugido num Vectra que os esperava por perto.
Mas aí surge outra questão: se os homens que acabaram matando Eliseu não tinham intenção deliberada de fazê-lo e queriam, apenas, roubar o carro, porque usaram um segundo veículo na ação? Sim, poderiam ser ladrões que atuam de modo planejado e o segundo carro estaria na cena apenas para o caso de alguma coisa sair errada como, efetivamente, saiu. Estaríamos, então, lidando com criminosos profissionais? Ou não são profissionais os ladrões que planejam seus assaltos?
Entretanto, se for assim, a segunda hipótese para o mistério da rua Hoffmann, a de que tenha havido uma execução, ganha alguma robustez. Ou seja, se foi coisa de profissional, o objetivo poderia ser o de tirar a vida de Eliseu. Para o pessoal de imprensa que chegou ao local do crime quando o corpo ainda estava no chão e para os policiais subalternos que primeiro atenderam a ocorrência, havia poucas dúvidas: a Eliseu fora dada uma “sentença” de morte. Só restava saber se a execução fora do próprio sentenciador ou de alguém a seu mando.
Foi o delegado Alexandre Vieira quem, lá pelas 3h da manhã de sábado, em entrevista à Rádio Gaúcha, tratou de esfriar esta primeira hipótese dizendo que assassinos profissionais não costumam agir em locais com tanta gente como a saída de um culto, não costumam atirar à distância (falava-se em cerca de 10 metros naquele momento) e, geralmente, usam armas de maior precisão e poder destrutivo (os projéteis no corpo de Eliseu, àquelas alturas já necropsiado, seriam de revólver calibre 38). Na linha de Vieira, o senador Sérgio Zambiasi (PTB) disse ter conversado com a viúva e que as palavras da mulher indicariam que houve, sim, uma tentativa de assalto.
A hipótese de execução não pode, contudo, ser descartada. Quando se investigam crimes deste gênero, uma das principais respostas que se procura é a motivação. O fato de o próprio Eliseu já ter dito publicamente que havia sido ameaçado e os rumorosos casos que envolviam seu nome, estão aí a manter viva esta trágica possibilidade
Que não se perca de vista que o tiro que matou Eliseu atingiu-lhe em cheio o coração. Se quem disparou o fez para reagir a um possível contra-ataque da vítima – hipótese de assalto - ou se visava mesmo matá-lo – hipótese da execução -, profissional ou não, atingiu seu objetivo.
Para que o caso Eliseu não caia no mesmo escaninho do caso Daudt, até hoje insolúvel, convém ainda pensar para além das hipóteses iniciais. E se quem matou o secretário não foi um assassino profissional nem um ladrão supreendido com a reação da vítima, mas um desafeto qualquer que, premido por algum sentimento de raiva ou vingança, resolveu tirar-lhe a vida? Mais: e se foram sim, assassinos profissionais que, exatamente para criar a confusão atual, simularam um asssalto? Seja como for, o mistério está aí a desafiar a competência da Polícia. Mais do que apresentar os personagens ainda ocultos do brutal assassinato de Eliseu Santos, cabe à Polícia responder à sociedade gaúcha, com provas irrefutáveis, como e por que o crime aconteceu. (Maneco)

Está sendo construída uma versão apolítica e inodora para a morte violenta do secretário de Fogaça


Cristóvão Feil chama a atenção, no Diário Gauche, para a rápida guinada editorial da RBS na cobertura do assassinato do ex-vice-prefeito e secretário de Saúde de Porto Alegre, Eliseu Santos (PTB). Na noite de sexta, logo após o crime, e na manhã de sábado prevalecia a “convicção generalizada de que o secretário havia sido executado por um de seus muitos desafetos”,como afirmou o jornal Zero Hora no sábado. Menos de 24 horas depois de afirmar isso, porém, ZH mudou de linha e passou a esvaziar a imagem do Eliseu “brigão” e “polêmico”. O Diário Gauche resume assim essa guinada:

“A espontaneidade das primeiras horas cede espaço para um tratamento editorial que visa esvaziá-lo de conteúdos políticos ou que envolvam interesses relativos ao submundo das disputas licitatórias, ligações com o caso Pathos, o recentíssimo depoimento da vítima à Polícia Federal que apura suspeitas de corrupção na prefeitura de Porto Alegre, ameaças de morte recebidas reiteradas vezes pelo secretário, etc”.

Desde os primeiros momentos após o assassinato, integrantes da cúpula da segurança pública passaram a defender a tese do latrocínio, tese esta rapidamente comprada pela mídia, que além de começar a construir essa narrativa (do latrocínio), engajou-se num processo de quase canonização do secretário morto, assegurando que ele estava “mudando para melhor” no governo Fogaça.

Primeiro delegado a chegar ao local do crime, Alexandre Vieira (aquele que peitou Enio Bacci e conseguiu a demissão do Secretário de Segurança junto à governadora, sendo promovido depois) fez a frase que pode ser considerada como resumo dessa guinada: “Se o matador planejou, planejou mal”. Nesta terça-feira, o jornalista Humberto Trezzi repete essa tese em ZH, ao falar de “assassinos brancaleones”. Se foi uma execução, diz ele, “estamos diante do atentado praticado pelo maior grupo de trapalhões jamais reunido no submundo”.

Há crescentes rumores de que o autor do “latrocínio” pode ser apresentado nas próximas horas, definindo o caso como crime comum e iniciando assim o fim do “caso Eliseu”. O fato de o assassinato ter ocorrido 24 horas depois de Eliseu Santos depor na Polícia Federal sobre a fraude no Programa Saúde da Família, na prefeitura de Porto Alegre, iria para a gaveta já repleta de “coincidências” não explicadas neste período recente da política gaúcha.